Todo engenheiro civil já enfrentou o dilema: o que fazer com os resíduos de construção? E se parte desses resíduos — especificamente o plástico — pudesse virar agregado no concreto? A ideia parece promissora e sustentável. Mas será que funciona? A ciência já tem respostas, e elas são mais complexas do que parece.
Neste artigo, vamos explicar o que é o concreto reciclado com plástico, como funciona, quais são os resultados técnicos, onde pode ser aplicado, quais são os riscos e o que a NBR 6118 e a NBR 12655 dizem sobre isso. Tudo baseado em literatura científica recente — sem achismo.
O que é o concreto com plástico reciclado
O concreto com plástico reciclado é aquele que substitui parte do agregado miúdo (areia) ou graúdo (brita) por partículas de plástico processadas. O plástico pode entrar na forma de flocos, partículas trituradas, pellets ou agregados processados a partir de PET, PP, PEAD, PEBD, PVC e resíduos plásticos mistos.
Atenção: agregado plástico não é a mesma coisa que fibra plástica. O agregado substitui a brita ou areia e altera massa, rigidez e empacotamento. A fibra atua no controle de fissuração e tenacidade. São funções diferentes.
Concreto reciclado: como é feito
O processo começa com a coleta e beneficiamento do resíduo plástico. O material é lavado, triturado e classificado granulometricamente. Depois, é incorporado ao concreto como substituição parcial do agregado — normalmente entre 5% e 30% em volume.
A dosagem segue os mesmos princípios do concreto convencional, mas com atenção especial à zona de transição (interface plástico-pasta), que é onde mora o principal desafio técnico.
Principais achados técnicos
A literatura científica recente (2023-2026) converge em um ponto central: substituir parte da areia ou brita por plástico pode reduzir massa específica e condutividade térmica, mas, em geral, também reduz resistência mecânica e rigidez.
| Propriedade | Tendência com plástico reciclado | Observação |
|---|---|---|
| Massa específica | ↓ Diminui | Concreto mais leve |
| Resistência à compressão | ↓ Diminui | Queda de 10-40% dependendo do teor |
| Módulo de elasticidade | ↓ Diminui | Mais sensível que a resistência |
| Condutividade térmica | ↓ Diminui | Melhor isolamento térmico |
| Durabilidade | ↔ Variável | Depende da interface e porosidade |
| Trabalhabilidade | ↔ Variável | Depende da geometria das partículas |
| Comportamento ao fogo | ↓ Piora | Ponto crítico — fissuração precoce |
Resistência à compressão
A resistência tende a cair com o aumento do teor de plástico. O motivo é triplo: menor rigidez do polímero, pior empacotamento e aderência mais fraca na zona de transição. Em traços com 20% de substituição, quedas de 20-30% são comuns.
Módulo de elasticidade
O módulo cai de forma ainda mais sensível que a resistência. Isso exige cautela com fissuração e flechas em uso estrutural. Um concreto que “aguenta” a carga, mas deforma demais, não serve.
Comportamento ao fogo
Este é um ponto crítico. Concretos com agregado plástico podem apresentar fissuração mais cedo, carbonização, formação de vazios por decomposição do PET e perda acelerada de desempenho em temperaturas elevadas. Para elementos estruturais, isso é um risco real.
Microplásticos
A revisão de 2026 (Kim) indica queda de trabalhabilidade, resistência e desempenho de durabilidade, além de incerteza sobre liberação secundária de microplásticos ao longo da vida útil e na demolição. É uma lacuna que ainda precisa ser preenchida.

Onde o concreto com plástico funciona melhor
As aplicações mais maduras são aquelas onde a redução de peso, o ganho térmico e o reaproveitamento de resíduos importam mais do que alta rigidez estrutural:
- Blocos e peças de vedação — uso mais consolidado
- Pavimentos e pavers — resistência adequada para tráfego leve
- Painéis leves — redução de peso próprio
- Enchimentos e regularizações — onde não há carga estrutural
- Concretos leves com foco térmico — isolamento térmico
- Shotcrete — nicho promissor com PAM
Concreto reciclado: vantagens e desvantagens
| Vantagens | Desvantagens |
|---|---|
| Reduz resíduos plásticos no meio ambiente | Reduz resistência à compressão |
| Concreto mais leve | Reduz módulo de elasticidade |
| Melhor isolamento térmico | Pior comportamento ao fogo |
| Aproveita material descartado | Interface plástico-pasta fraca |
| Pode reduzir custos em alguns contextos | Durabilidade ainda incerta |
| Reduz demanda por agregados naturais | Microplásticos — risco desconhecido |
Concreto reciclado no Brasil
No Brasil, a pesquisa sobre concreto com plástico reciclado está crescendo. Universidades como USP, UFRGS, UFSC e UFRJ têm publicado estudos sobre o tema. A plataforma BIPc/SIDAC, lançada pela Caixa em parceria com o CBCS, já permite estimar o carbono incorporado em projetos — ferramenta útil para avaliar concretos alternativos.
A norma ABNT NBR 6118 (Projeto de estruturas de concreto) e a ABNT NBR 12655 (Concreto — preparo, controle e recebimento) são as referências para qualquer aplicação estrutural. O concreto com plástico reciclado deve ser tratado como concreto especial, sujeito a ensaios específicos e validação experimental.
Melhorias possíveis na interface
A zona de transição (interface plástico-pasta) é o calcanhar de Aquiles do concreto com plástico. Mas existem tratamentos que podem melhorar a aderência:
- Coating — revestimento superficial das partículas
- Oxidação — tratamento químico para aumentar rugosidade
- Silano — agente de acoplamento
- Plasma — tratamento superficial avançado
- Radiação — modificação da superfície
- PAM — uso em shotcrete para densificar a ITZ

Concreto reciclado: preço
O preço do concreto com plástico reciclado depende de vários fatores: custo do resíduo processado, transporte, dosagem, controle de qualidade e escala. Em alguns contextos, pode ser mais barato que o convencional — especialmente quando o resíduo plástico é abundante e próximo da obra. Mas a economia não pode virar prejuízo de desempenho.
Conclusão
O concreto com plástico reciclado não deve ser vendido como “solução verde automática”. Ele faz mais sentido onde a redução de peso, o ganho térmico e o reaproveitamento de resíduos importam mais do que alta rigidez estrutural.
Para elementos estruturais, o potencial existe, mas o risco técnico também: sem dosagem experimental, controle da interface e comprovação de desempenho, a sustentabilidade pode sair cara em resistência, serviço e durabilidade.
A mensagem para o engenheiro é clara: trate o concreto com plástico reciclado como concreto especial, não como “concreto comum com um resíduo a mais”. Só assim a sustentabilidade será real — e segura.
Referências
- Hamada, H. M. et al. (2024). Enhancing sustainability in concrete construction: A comprehensive review of plastic waste as an aggregate material. Sustainable Materials and Technologies.
- Guo, Y.-C. et al. (2023). A review on the influence of recycled plastic aggregate on the engineering properties of concrete. Journal of Building Engineering.
- Minde, P. et al. (2024). Comprehensive review on the use of plastic waste in sustainable concrete construction. Discover Materials.
- Resende, D. M. et al. (2024). Sustainable Structural Lightweight Concrete with Recycled PET Waste Aggregate. Buildings.
- Han, S. et al. (2026). Surface Treatment for Recycled Plastic Aggregate in Concrete: A Review. ACI Materials Journal.
- Kim, M. O. (2026). Can Microplastics Replace Conventional Mineral Aggregates? Polymers.
- NBR 6120 — Cargas Variáveis para Edificações — Portal da Engenharia.
- NBR 6123 — Forças devidas ao vento — Portal da Engenharia.








